Dicas e curiosidades da Língua Portuguesa

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VÓS, VOS, CONVOSCO, VOSSO, VOSSA, VOSSOS, VOSSAS?

2 semanas atrás - por:

Em pleno século XXI, mostra-se, a um só tempo, horrendo, antiquado e desastroso o emprego dos pronomes pessoais VÓS, VOS, CONVOSCO e, igualmente, o uso dos correspondentes possessivos VOSSO, VOSSA, VOSSOS, VOSSAS, quer na fala, quer na escrita. Afinal, essa forma de expressão já morreu de velha, já foi sepultada e jamais ressuscitará.

A normatividade gramatical é inflexível em relação à uniformidade de tratamento. Torna-se, então, imperativo esclarecer que, ao iniciarmos qualquer texto, oral ou escrito, teremos liberdade para escolher o tratamento que adotaremos para tratar a pessoa, ou pessoas, a quem nos dirigiremos: segunda ou terceira pessoas do discurso. Todavia, é também imperativo saber que, depois desse tratamento inicial, seja num texto oral, seja num texto escrito, teremos de mantê-lo até o final da fala ou da escrita.

Todavia, verbos e pronomes de segunda pessoa do plural, quero crer, nem os últimos dinossauros os empregaram. Ou, talvez, alguns deles o tenham feito, se doutrinados em uma das mais conservadoras e ultrapassadas religiões d’outrora. Sim, refiro-me àquelas em que os fiéis são obrigados a, abobadamente, repetir orações sobre cujo conteúdo nunca refletiram e de cujos absurdos jamais se aperceberam.

Antes de exemplificar essas carolices, preciso dizer que fico espantado quando, em algum templo, ouço um rebanho repetindo textos desconexos e totalmente incompreensíveis. Essa gente desmiolada, seguindo uma tradição jurássica, vai falando, sem pensar: Pai nosso (um pai, portanto!), que estais no céu (agora já são vários pais, pois o verbo foi pluralizado!), santificado seja o vosso nome (nome de vários pais, agora!)… E por aí vai, até o insosso “Amééééémmmm”. Ou, pior ainda, quando, também delirando, o rebanho repete: Ave, Maria (somente uma Mariazinha, portanto), cheia de graça, o Senhor é convosco (pronto, agora já são, no mínimo, duas Mariazinhas, pois surgiu um pronome plural!), bendita sois vós (bolas, mas quantas mãezinhas Jesus teve?). Isso sem falar que, nesse introitozinho mínimo da oração em homenagem à mãe de Jesus, há outro absurdo que, com certeza, nem ela própria, tampouco seu filho entenderiam: “o Senhor é convosco”. Sem preconceito, com o maior esforço possível e o máximo de racionalidade, duvido que alguém “traduza” esse trechozinho: o que ele diz? Nada! Ainda que deixássemos o absurdo “convosco” valendo para uma pessoa só, o verbo a ser usado não seria o “ser”, mas, sim, o “estar”. Maldita doutrinação de ignorantes e imperdoável achincalhamento ao idioma pátrio!

Visando a clarear ainda mais o que é uniformidade de tratamento, organizarei, na sequência, algumas situações exemplificativas. Que, lendo-as, cada um descarte o tratamento que jamais poria em prática.

PRIMEIRO EXEMPLO: segunda pessoa do singular
– Como tens (2ª pessoa do singular) passado, MEU AMIGO? Encontrar-te, falar contigo e saber de tuas novidades, gratifica-me muito. Tu estiveste na última reunião e foste aplaudido. Fiquei feliz, mas não pude falar contigo. Que tu mesmo, tua esposa e teus filhos saibais de minha admiração por ti e por teu procedimento em sociedade.
SEGUNDO EXEMPLO: segunda pessoa do singular
– Como tem (3ª pessoa do singular) passado, MEU AMIGO? Encontrá-lo, falar com você e saber de suas novidades, gratifica-me muito. Você esteve na última reunião e foi aplaudido. Fiquei feliz, mas não pude falar com você. Que você mesmo, sua esposa e seus filhos saibam de minha admiração por você e por seu procedimento em sociedade.
TERCEIRO EXEMPLO: segunda pessoa do plural
– Como tendes (2ª pessoa do plural) passado, MEUS AMIGOS? Encontrar-vos, falar convosco e saber de vossas novidades, gratifica-me muito. Vós estivestes na última reunião e fostes aplaudidos. Fiquei feliz, mas não pude falar convosco.  Que vós mesmos, vossas esposas e vossos filhos saibais de minha admiração por vós e por vosso procedimento em sociedade.
* Há de se observar que a 2ª pessoa do plural (vós, vos, convosco, vosso, vossa, vossos e vossas) jamais poderá ser empregada em relação a uma pessoa só!
QUARTO EXEMPLO: terceira pessoa do plural
– Como têm (3ª pessoa do plural) passado, MEUS AMIGOS? Encontrá-los, falar com vocês e saber de suas novidades, gratifica-me muito. Vocês estiveram na última reunião e foram aplaudidos. Fiquei feliz, mas não pude falar com vocês. Que vocês mesmos, suas esposas e seus filhos saibam de minha admiração por vocês e por seus procedimentos em sociedade.

 

Por:
Prof. Ironi Andrade
do autor
Professor de Língua Portuguesa, Redação e Oratória e criador do Método do Português Lógico, o qual já vem sendo testado, com absoluto sucesso, há mais de 46 anos de magistério.

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