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UMA (NECESSARIÍSSIMA!) REFLEXÃO SOBRE A ACENTUAÇÃO GRÁFICA

1 semana atrás - por:

“Querer ensinar, tanto quanto querer aprender, atropelando pré-requisitos, é algo totalmente absurdo”.

Assunto facílimo, porém de precário domínio na prática escrita, a acentuação gráfica, como todos os demais conteúdos gramaticais, exige, para aproveitamento satisfatório em seu estudo, uma série de pré-requisitos e muita organização.

Em primeiro lugar, as pessoas que ensinam e, também, aquelas que buscam o domínio da agradável arte de usar os acentos circunflexo (^) e agudo (´) precisam entender que a gramática possui três partes: fonética, morfologia e sintaxe. Depois disso, e sempre que se estudar algum conteúdo gramatical, mostrar-se-á fundamental localizá-lo dentro desses conjuntos organizados de temas. Com isso, o cerco fechar-se-á e mais facilmente se chegará ao objetivo pretendido.

No caso específico da acentuação gráfica, é interessante saber, tanto quanto possível, que se trata de um fenômeno fonético, ou, vez por outra, fonológico. Adicionalmente a isso, aqueles já mais familiarizados com uma gramática – os professores de Língua Portuguesa, por exemplo – hão de verificar onde, mais precisamente, dentro do campo fonético, o conteúdo se situa: no início, no meio ou no fim? Afinal, querer ensinar, tanto quanto querer aprender, atropelando pré-requisitos, é algo totalmente absurdo.

Pois bem, a acentuação gráfica fecha a primeira parte da gramática, a fonética. Em sendo assim, para entendê-la, já terão de ter sido assimilados, com muito bom padrão de domínio, todos os assuntos fonéticos anteriores ao emprego dos acentos: os fonemas (sinais e sons), as letras (encontros vocálicos, encontros consonantais e dígrafos) e as sílabas (partição silábica e classificação de vocábulos quanto à posição da sílaba tônica e quanto ao número de sílabas). Enquanto todos esses aspectos não estiverem cristalinamente dispostos e visíveis na palma de uma mão, frustrada resultará qualquer tentativa de sequer entender o conteúdo, quanto mais dominá-lo. Sem base, aliás, telhado algum se sustenta.

Depois de atender a esse propósito, outra reflexão, também indispensável, se impõe: há de ser centrada a atenção na fixação (para não usar a terrível e humilhante palavra “decoreba”) de quais vocábulos devem ser grafados com acento, ou potencializar a capacidade intelectual, mirando as regras?

                Reflitamos sobre isso. Segundo os mais completos dicionários em Língua Portuguesa ora existentes, a comunicação, no Brasil, é feita mediante o emprego de 400 mil vocábulos. Estima-se, também, que o cidadão mais intelectualizado do país talvez domine, desse total, 30 mil. Ora, decorando-se vocábulos, com e sem acentos, já ficariam à mercê da sorte, na hora de grafá-los, 370 mil. Mais grave ainda: entre as supostas 30 mil palavras de domínio do mais culto brasileiro, estariam centenas e centenas de palavras cujo aprendizado se dera erradamente. Sem falar, é claro, na precariedade da memória humana. E daí, devemo-nos fixar nos 400 mil vocábulos ou nas tão somente sete regras de acentuação? Nas regras, naturalmente.

Não adiantará, todavia, e mais uma vez, fixar-se, correta e racionalmente, nas sete regras, sem o domínio pleno da fonética e da fonologia indispensáveis à compreensão de cada uma delas. Decorar, por exemplo, que a forma rizotônica “enxáguem” deve ser acentuada, sem se preocupar com o porquê de esse acento ser necessário, será totalmente inútil, pois excluirá um sem-número de casos semelhantes. Ao contrário disso, aplicar o conteúdo fonológico já aprendido e concluir reflexivamente que, como júri, táxi, pônei, e muitos outros vocábulos, está-se diante de um paroxítono acabado em “i” e, como tal, o acento é obrigatório, além de ser mais prazeroso, o fato repassará plena certeza, maior segurança e incomparável satisfação.

Outro fator que, inteligentemente bem explorado, inspira enorme segurança diz respeito ao caráter legal do assunto. Sim, há de haver sempre esta consciência: não se acentua o vocábulo “árvore”, por exemplo, por ser “árvore”, ou então, e absurdamente, já “ter vindo ao mundo” escrito assim, com acento. Há de se ter consciência, diferentemente disso, de que existe uma lei de vigência multinacional, por detrás de tudo isso, obrigando que se empregue esse acento. É ainda mais extraordinariamente confortante poder pensar assim: não importa que apareçam em minha frente 400 mil vocábulos, sei que nenhum receberá acento acaso não se encaixe em alguma dessas sete regras.

Por fim, não há como fechar esta reflexão sem evidenciar o porquê de o domínio desse tema ser tão precário e, até, meio desesperador. Além da inobservância dos indispensáveis pré-requisitos, nós, professores, pecamos duplamente ao professorarmos sobre o assunto. Em primeiro lugar, motivamos minimamente nossos alunos, poupando-os de mais estudos preliminares e “mastigando” em excesso as regras a serem fixadas. Com isso, tolhemos-lhes o impostergável e intransferível compromisso com a reflexão, com o raciocínio. Depois disso, exigimos pouquíssimo treinamento, num momento especial da aprendizagem em que exercitar as regras, como se fossem as quatro operações matemáticas, apresenta-se como atividade indiscutivelmente indispensável.

Assim sendo, quer os professores, responsáveis pelo ensino, quer os aprendizes, encarregados dos estudos, todos, em uníssono, haverão de também refletir, convencendo-se de que, sem observância rigorosa de cada um desses tantos detalhes, os conhecimentos sobre tão facílimo assunto continuarão a preocupar por sua fragilidade.

Por:
Prof. Ironi Andrade
do autor
Professor de Língua Portuguesa, Redação e Oratória e criador do Método do Português Lógico, o qual já vem sendo testado, com absoluto sucesso, há mais de 46 anos de magistério.

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