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Gramática Contextualizada

1 semana atrás - por:

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A expressão gramática contextualizada ganhou maior notoriedade a partir da década de 1970, quando o ensino da gramática normativa (ensino das regras gramaticais) passou a ser demonizado nas academias.

Segundo linguistas modernos, ditar regras gramaticais apresenta-se como sinônimo de discriminação ou preconceito linguístico, pois privilegia a classe social alta, que teve a oportunidade de estudar em boas escolas e assimilar as normas cultas do idioma.

Segundo esses especialistas, o ensino do idioma pátrio deve-se pautar na prática diária da fala e da escrita, pois, conforme argumentam, não há certo ou errado na forma de se comunicar, mas maneiras diferentes de fazê-lo.

De maneira prática, e de acordo com essa visão moderna de ensino da língua materna, ao invés de levar os alunos à análise de textos de autores clássicos, aqueles que prezavam a boa norma gramatical, o professor deve respeitar todas as formas de expressão, priorizar igualmente todos os gêneros textuais e conduzir suas aulas de forma não preconceituosa, sem exclusão, acatando todos os tipos de linguagem.

Dentro dessa visão, a análise de um fragmento de Memórias Póstumas de Brás Cubas, suprassumo machadiano, por exemplo, está muito longe do contexto social em que os alunos vivem. Em consequência disso, eles terão maior proveito se examinarem um cartaz anunciando a passeata das minorias excluídas, um bilhete enviado a um amigo, uma lista de supermercado, e assim por diante, haja vista que esse tipo de comunicação faz parte da realidade da clientela onde as escolas estão instaladas.

Além disso, esses mesmos estudiosos dizem que, ao invés de explicitar a norma gramatical e, depois, ir ao texto a fim de ver onde e como ela ocorre, o correto seria a direção inversa, isto é, partindo do texto, levar os alunos, por esforço e interesse próprios, a descobrirem a normatividade que disciplina o idioma.

A mim, muito particularmente, os dois extremos – preterir a norma culta do idioma e partir sempre do texto para contextualizar o ensino gramatical – são equivocados e inviáveis, na prática de sala de aula.

Ocorre, em primeiro lugar, que ninguém terá acesso a um mercado de trabalho competitivo como o atual se não demonstrar bom domínio das normas cultas do idioma. Afinal, antes mesmo de comprovarem experiência na função a ser desempenhada, todos os candidatos são testados pela correção com que se expressam, quer na fala, quer na escrita. De igual sorte, para a continuidade, cada vez mais necessária, dos estudos – via Enem ou vestibulares –, o domínio do padrão culto da língua materna é pré-requisito obrigatório.

De outra parte, mas andando na mesma direção, ao confrontarmos a verdadeira pregação acadêmica com a natural prática de sala de aula, perceberemos que os professores, ou por falta de habilidade, ou por indução do material didático, ou, ainda, por exigência dos próprios alunos – sempre atentos a provas de toda espécie –, não abandonam a prática antiga que sempre previu a explicitação da norma gramatical no padrão culto para, posteriormente, identificá-la nos textos escritos por pessoas detentoras de expressivo domínio idiomático.

Qual a forma mais aceitável ou correta, pois? Ora, eu entendo que, enquanto a cultura não mudar, oportunizando que haja livre acesso ao mercado de trabalho e à progressão dos estudos, independentemente do domínio do idioma culto-padrão, “há que se dançar conforme a música”. Julgo tão apaixonante pensar num ensino pautado totalmente nas vivências discentes, quão utópico considerar isso viável, dada a forma de como se selecionam pessoas para os embates que a vida impõe. Ademais, a discussão entre texto e, depois, gramática, ou gramática e, depois, texto, parece-me também utópica, desnecessária, dispensável e ideológica. Afinal, cada caso é um caso, cada realidade é uma realidade, cada escola é uma escola, cada clientela é uma clientela. Discutir formas de como tornar as aulas mais atraentes e produtivas, sem essa desnecessária preocupação “com o sexo dos anjos”, sim, redundaria em lucrativos dividendos.

Eu, ao longo de quase cinco décadas de sala de aula, sempre explicitei a norma culta do idioma e, posteriormente, contextualizei-a, de acordo com a realidade de meus alunos e a normatividade gramatical exigida pelos diversos tipos de seleção, quer para acesso ao mercado de trabalho, quer para a continuidade dos estudos. A velha escola normal já me ensinou que o objetivo do magistério era “preparar o alunado para a vida”. Enfim, professorando dessa forma, percebo diuturnamente um interesse crescente de minha clientela pelas aulas que ministro e vibro intensamente com os resultados incríveis que meus alunos obtêm nos desafios a que se submetem em seus embates cotidianos.

Por:
Prof. Ironi Andrade
do autor
Professor de Língua Portuguesa, Redação e Oratória e criador do Método do Português Lógico, o qual já vem sendo testado, com absoluto sucesso, há mais de 46 anos de magistério.

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