Dicas e curiosidades da Língua Portuguesa

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Como a infância determina o rumo de uma vida.

3 meses atrás - por:

Certa vez, participando de uma entrevista de rádio, fui instado a discorrer sobre minha infância. A pergunta: “Professor Ironi Andrade, hoje queremos saber detalhes acerca de sua infância: como foram seus tempos de criança?”.

Bastou, minha resposta veio espontânea, irrefreável e sincera. Minha infância, comecei, teve tudo aquilo com que, nos primeiros anos de vida, qualquer piazito do interior do Rio Grande do Sul convive. Eu tive a ventura de experimentar momentos de puro encanto, de pura sedução, de indescritível beleza. Convivi muito com minha nona, mãe de minha querida e saudosa mãe, e com meu bisavô paterno.

Da “Vó Angelina”, eu era o companheiro inseparável: visita aos vizinhos, cuidados da horta, terços aos domingos à tarde, viagens a Soledade e partos, muitos partos. Ela era parteira de campanha. E eu a acompanhava, sem direito a ver nada e, muito menos, a falar sobre aquele assunto tão feio. Fui um simples escudeiro, mas aprendi muito naquelas andanças, às vezes por dias a fio.

Com o “Vô Jorge”, tínhamos embates frequentes e dramáticos. Éramos, ambos, muito espertos para a época. Um vivia tentando pôr o outro em frias. Certo dia, enquanto ele dormia, após o almoço, na casinha do forno de pão, junto ao fogo de chão, troquei o palito (um palito de fósforo, lascado ao meio) com que ele limpava os dentes e que, durante a soneca, ficava sobre um cepinho de madeira, por uma minhoca seca, resto de uma pescaria que havíamos feito. E fiquei por aí, “na motuca”. Depois de acordar, ele passou a mão no “palito” e continuou a limpeza dos dentes. Na medida em que palitava os dentes, a minhoca amolecia, é claro. Meio desconfiado, resolveu ver o que estava acontecendo e, então, eu não me contive: “O vô tá pa-li-tan-do os den-te com mi-nho-ca”. Falei aquilo entre risos, pausadamente e com voz bem fanha, que já era como eu falava àquela época. Uma peça, sem dúvida!

Outro episódio hilariante de que me recordo e que não dá para esquecer foi quando meu irmão, imediatamente mais velho que eu, fez o outro, mais velho que ele, sentar-se na bosta. Explico: as necessidades fisiológicas eram feitas no mato, e o papel higiênico eram ramos macios de árvores. Enquanto um fazia suas necessidades, os outros inventavam traquinices. Dessa vez, escondido à margem da estrada, abaixo de um barranco enorme, meu mano Adacir evacuava tranquilamente. Lá de cima, meu outro irmão, Ivanir, ameaçava-o com uma pedra na mão. Num repente, sei lá se por descuido ou por gosto mesmo, aquela pedra soltou-se da mão do mais novo e acomodou o mais velho sobre os dejetos já evacuados. E, claro, ríamos muito com aquelas maluquices todas.

Em momentos como esse era comum, também, substituir a porçãozinha de folhas macias, acumuladas para a limpeza dos fundilhos, por feixezinhos de urtiga: era uma gritaria só e, no meio de nomes feios e pragas de toda ordem, o tempo fechava. Ainda dessa época, lembro o caso do guabiju. Meu mano mais velho, ou meu primo, não tenho certeza absoluta disso, subiu em um pé de guabiju e se recusava a derrubar frutas aos demais que estavam embaixo da árvore. Um de meus primos fez, aí mesmo, suas necessidades fisiológicas e enlameou o tronco da árvore: descer como? Houve negociação. Limpamos o “trajeto”, ele jogou frutas para baixo e, finalmente, como vingança, sujamos tudo de novo!

Além desse tipo saudável de traquinar, pescávamos e caçávamos muito. Numa determinada tarde, lembro bem, cheguei em casa faminto e só encontrei pão seco para comer. Não tive dúvidas, passei a mão num bodoque, andei cerca de trinta metros, encontrei um tico-tico, acertei-lhe uma pedrada bem no meio do peito, levei-o para casa e, em não mais de vinte minutos, estava comendo pão “potchado” no molho do passarinho.

Era tudo muito fácil, por lá. Banhos de sanga, caçadas, pescarias, serões históricos, visita de tropeiros e de mascates, dificuldades de locomoção, madrugadas geladas, nevascas, estradas precárias, tropas de bois, cavalos e mulas, companhia ao pai em negócios de terras, de animais e de produtos agrícolas, terços aos domingos à tarde e missas mensais, pela manhã, na capelinha de Caravágio, culinária, minha mesmo ou de minha nona, horta, tanque, pia, porão cheio de salame, pão bonito saindo do forno, tombo da bicicleta e do cavalo, galpão e guerra de espigas de milho, roupas “bonitas” passadas dos irmãos mais velhos aos mais novos, tudo, numa hora dessas, desfila na memória, numa espécie de filme cuja finalidade é excitar o quase inconsciente e trazer de volta uma infância que, infelizmente, nossos filhos não conheceram e que, a nossos netos, bisnetos e trinetos, parecerão histórias de vô caduco. Uma pena!

Pois bem, já pensei muito sobre isso tudo e sempre concluo a mesma coisa: sem o envolvimento que marcou minhas relações com as pessoas que me cercaram lá atrás, talvez me faltassem criatividade, otimismo, bom humor, coragem e espírito empreendedor para nunca baixar a cabeça, ir sempre em frente e chegar onde cheguei. Bem se diz popularmente: “Nada ocorre por acaso”.

Hoje, como recompensa, vejo-me no dever de dedicar aos personagens de minha infância os frutos que, por certo, as gerações do futuro colherão. Tudo o que fiz, faço e ainda farei há de homenagear, num justo preito de gratidão, todos aqueles com quem convivi lá atrás e que, cada um a seu jeito, colaboraram para com minha construção, como profissional e como cidadão de bem. Muito obrigado a todos.

Por:
Prof. Ironi Andrade
do autor
Professor de Língua Portuguesa, Redação e Oratória e criador do Método do Português Lógico, o qual já vem sendo testado, com absoluto sucesso, há mais de 46 anos de magistério.

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