Dicas e curiosidades da Língua Portuguesa

Dicas

Aprender, emocionando-se ou emocionando-se para aprender?

1 semana atrás - por:

gramatica-contextualizada-blog

Certa vez, eu assistia a uma palestra e observava, boquiaberto, a forma de como o palestrante seduzia a plateia que se acotovelava à sua volta.

Além de falar pausadamente, encarar os presentes olho-no-olho, articular muito bem os vocábulos, ele era claro, objetivo, conciso e, principalmente, simplicíssimo em sua exposição.

A par de uma sólida formação acadêmica, e pós-acadêmica também, minha construção, quer como ser humano, quer como profissional, sempre levou em conta a escola da vida, o conselho dos anos, e, assim, nunca desprezei oportunidades de crescimento.

Nesse sentido, aproveitei para associar o espetáculo que, então, presenciava à minha trajetória de 45 anos no magistério. Percebi que, tal qual aquele cidadão, eu também sempre levei muito a sério predicativos como falar pausadamente, encarar os alunos olho-no-olho, articular muito bem os vocábulos, ser claro, ser objetivo, ser conciso e, principalmente, ser muitíssimo simples na exposição dos conteúdos.

Embora isso tudo já fosse bastante, minha observação também levou em conta uma estratégia adicional usada, com extrema simplicidade, por ele. Como os presentes éramos todos membros de clubes de serviço, aquele exímio orador conclamava-nos a sermos salames, e não tripas.

Perguntando-nos se comíamos salame e se gostávamos desse tipo de comida, ele explicava: salame é bom porque “vive”, durante um bom tempo, envolvido. Mostrava-nos que, ao nos deliciarmos com salames, não comíamos a tripa, mas, sim, o salame propriamente dito, pois essa era a parte boa da iguaria. Mostrava-nos, também, que a tripa não vale nada, pois ela “vive” por fora, à margem das coisas, é simples espectadora do mundo.

Novamente, aí, reportei-me à minha atuação profissional. Muito mais do que um paupérrimo repassador de regrazinhas – no mais das vezes impensadas, frágeis e, por isso mesmo, inúteis –, sempre procurei envolver, quais salames, meus alunos, relativamente àquilo que estudávamos e, sobretudo, às maravilhas do idioma pátrio.

Nesse sentido, lembro-me de que, ainda em minha impetuosidade juvenil, formulei uma máxima que, além de me acompanhar vida a fora, sempre me foi, também, muito útil em tudo o que fiz na vida que já levei e nos afetos que construí: ninguém ama o desconhecido.

Pautando minha atividade nesse princípio, tive permanente e irresistível tentação em levar meus queridos alunos a refletirem sobre a origem e a evolução da Língua Portuguesa, algo tão essencial ao envolvimento, mas para o que, parece, sempre falta tempo no malfadado cronograma de aulas. Afinal, há que se repassarem as malditas, estéreis e inúteis regrazinhas gramaticais.

Ora, com simplicidade e envolvimento, lapidam-se tesouros; constroem-se maravilhas; edificam-se pirâmides; formam-se impérios. Sem isso, a vida é outono: não tem cor, é insípida, revela-se um meio-tom, insosso, triste, pegajoso e despido de emoção, de afeto, de graça.

Ser salame, portanto. Eis a questão!

Por:
Prof. Ironi Andrade
do autor
Professor de Língua Portuguesa, Redação e Oratória e criador do Método do Português Lógico, o qual já vem sendo testado, com absoluto sucesso, há mais de 46 anos de magistério.

Comentários sobre este post

Cadastre-se e receba nossas novidades