Professor Ironi concede entrevista a jornal local sobre a Reforma Ortográfica

A malfadada Reforma Ortográfica

Depois de 26 anos de marchas e contramarchas, quando tudo indicava que a Reforma Ortográfica entraria em vigor em sua plenitude, eis que a presidenta Dilma Rousseff resolve protelar, adiando em três anos sua entrada em vigor.

Nossa reportagem contatou com o professor Ironi Andrade, profundo conhecedor do assunto. O professor já publicou centenas de matérias em jornais e revistas de todo o país, proferiu uma centena de palestras sobre o assunto e intentou três ações judiciais, visando a impedir a aprovação final do texto no Congresso Nacional. Eis um resumo das perguntas formuladas:

O Nacional: Professor Ironi Andrade, quando e como toda essa história iniciou?
Prof. Ironi Andrade: Tudo isso teve início no ano de 1986, no governo do ex-presidente José Sarney.

ON: Por que se realizam reformas ortográficas, professor?
Prof. Ironi Andrade: Simplesmente para assaltar a população, ignorante e acomodada, que aceita esse tipo de assalto.

ON: Quer dizer que as reformas são desnecessárias?
Prof. Ironi Andrade: Não só desnecessárias, mas também totalmente inócuas. Não produzem efeito prático nenhum, tampouco têm alguma utilidade. A finalidade é somente arrecadatória. Basta ver que em países cultos, e de população engajada, isso não ocorre. O Inglês, o Francês e o Alemão, por exemplo, nunca foram reformados.

ON: Em que assuntos a atual Reforma interferiu?
Prof. Ironi Andrade: No Brasil, de forma obrigatória, só dois assuntos forma afetados: acentuação gráfica e emprego do hífen.

ON: Qual a cronologia dessa Reforma, professor?
Prof. Ironi Andrade: Em 1986, o ex-presidente e membro da Academia Brasileira de Letras José Sarney propôs que se formasse uma comissão de alto nível a fim de estudar a unificação ortográfica nos sete países em que a Língua Portuguesa era idioma oficial (hoje são oito). Depois de quatro anos de tratativas, a Academia Brasileira de Letras e a Academia de Ciências de Lisboa concluíram o NOVO ACORDO ORTOGRÁFICO DA LÍNGUA PORTUGUESA. A partir daí, esse texto tramitou por mais de cinco anos no congresso, tornando-se lei no dia 18 de abril de 1995. Para entrar em vigor, porém, havia necessidade de um decreto presidencial, que só foi assinado no dia 29 de setembro de 2008, na sede da ABL, pelo então presidente Luís Inácio Lula da Silva. Por esse documento, a entrada em vigor dar-se-ia, como de fato ocorreu, no dia primeiro de janeiro de 2009. Estabelecia, ainda, um período de quatro anos de transição, tempo em que vigorariam os dois sistemas, o antigo e o novo. Antes de se completarem os quatro anos, o que ocorreria no dia 31 de dezembro de 2012, a Presidenta da República resolveu, num canetaço, protelar por mais três anos essa transição.

ON: Qual a justificativa?
Prof. Ironi Andrade: Desinformação. O senador Cyro Miranda, de Goiás, alegou que as escolas não tiveram tempo para reciclarem os alunos e, em consequência, seriam cometidas injustiças no Enem, nos vestibulares e em outros concursos públicos. O Itamarati e o Palácio do Planalto, por sua vez, desinformados como o próprio congressista, aderiram à proposta de adiamento para primeiro de janeiro de 2016.

ON: Qual o custo de implantação de um monstrengo desses?
Prof. Ironi Andrade: É algo incalculável e inimaginável. O assalto dá-se tanto ao erário, quanto ao bolso do cidadão comum. Basta ver quanto o governo já gastou com reciclagem de professores, com acréscimo na compra de livros didáticos a serem distribuídos às escolas, que a partir deste ano já devem estar totalmente revisados, na reposição em bibliotecas públicas, e assim por diante. Já, no que se refere ao cidadão comum, o assalto é maior ainda: não bastasse todo o gasto público ser suportado pela população, via pagamento de impostos, desde o dia primeiro de janeiro de 2009, pagamos de cinco a sete por cento a mais ao comprarmos qualquer livro. É o custo de reedição que está sendo repassado ao consumidor. Mais ainda: tudo o que é comercializável nos oito países lusófonos terá de ser obrigatoriamente reeditado. E isso resultará na derrubada de muitas florestas. Isso tudo sem falar na poluição ambiental que resultará do descarte de tudo o que estiver desatualizado nas bibliotecas dos oito países de Língua Portuguesa. Por fim, efetivamente repugnante é o fato de todo esse custo ter mexido em tão pouco, na acentuação gráfica e no uso do hífen.

ON: O que a população deve fazer agora?
Prof. Ironi Andrade: A população deve fingir que nada aconteceu e continuar a prática da Reforma, como já vem sendo feito. Na verdade, desde 2009, jornais, revistas, livros de qualquer espécie, legendas de filmes ou entrevistas, tudo já está adaptado à nova realidade. De mais a mais, a Reforma é um caminho sem volta: o país todo já assimilou as novas regras. Num concurso público, por exemplo, quem, numa redação, demonstrar que ainda não assimilou o novo regramento estará pedindo ao examinador que lhe dê uma nota baixíssima por pura alienação.

ON: A população pode ficar tranquila no sentido de que não haverá retrocesso no sentido de voltar tudo à estaca zero?
Prof. Ironi Andrade: Pode sim. Não há como isso ocorrer aqui no Brasil. A Reforma já foi implantada, as mudanças já ocorreram. Não existe a mínima possibilidade de essa lei vir a ser desconstituída.