História do professor Ironi Andrade

Ironi Andrade, 62 Anos de Vida, 40 Anos de Profissão

A partir de hoje, dia 23 de abril de 2013, data em que o professor Ironi Andrade comemorará 40 anos de carreira profissional, estaremos publicando uma superentrevista, conduzida pelo jornalista Rodrigo Accorsi, a partir da qual os frequentadores de nosso sítio poderão conhecer detalhadamente a vida e a obra desse verdadeiro ícone da educação local, regional, nacional e, muito brevemente, internacional também.

Será montada, sequencialmente, a linha do tempo, que partirá do dia em que o professor Ironi nasceu e virá até a atualidade, fechando-se justamente no quadragésimo aniversário de profissão desse Educador Passo-Fundense.


Parte 1 - Onde nasceste e como foi tua infância, professor Ironi Andrade?

Parte 1


Rodrigo Accorsi: Onde nasceste e como foi tua infância, professor Ironi Andrade?

Prof. Ironi Andrade: Nasci, no dia 18 de outubro de 1951, em Linha Segredo, subdistrito do então primeiro distrito de Encantado, Arvorezinha, que se emanciparia no dia 16 de fevereiro de 1959, na região do Alto do Taquari. Minha infância não teve, certamente, nada de especial, a não ser o fato de ter começado a trabalhar muito cedo, acompanhando meu pai em todas as lidas de campo. Às vezes paro, penso e me espanto: como, naquela época, uma criança de cinco anos podia acompanhar os adultos em todas as atividades domésticas e agrícolas? Pois bem, meu pai era carroceiro, além de pequeno agricultor.

Na safra da erva-mate, com uma carroça puxada por um carro de bois, ele transportava o produto do mato, onde era colhido, até o barbaquá, onde ocorria todo o processo de preparo para comercialização – da secagem ao empacotamento. Acordávamos por volta das quatro horas da manhã e lá íamos rumo ao mato. Eu era o brequeiro, mais precisamente. Fazia muito frio e o calçado eram os tamancos. Lembro que, quebrando o gelo, o calçado ficava molhado, escorregadio e muito pesado. Ainda carrego cicatrizes nos tornozelos das “pauladas” que recebia, devido a torções naturais naquela região dos membros inferiores. Depois de duas ou três cargas, meu pai ia ao mato buscar mais erva e eu ficava no paradouro preparando o almoço: normalmente arroz com costela de porco.

Parávamos somente para almoçar, sentados em tocos de árvores, com o prato sobre os joelhos, e tornávamos a trabalhar, até oito ou nove da noite. Além disso, plantávamos o necessário para a sobrevivência de toda a família, meus pais, minha avó, que morava conosco, e meus dez irmãos. E cultivávamos tudo o que era necessário à nossa sobrevivência: milho, arroz, feijão, trigo, batata, batatinha inglesa e hortaliças. Criávamos porcos, gado e galinha também. E eu, como já dissera, com cinco anos, era o companheiro inseparável de meu pai: no sol, na chuva, na geada e, eventualmente, na neve também.

Entendo que deva deixar bem clara uma coisa: relato esses fatos com enorme prazer, jamais em tom de queixa. Sou grato à infância que tive, não me queixo de nada e tenho firme convicção de que não cresci recalcado, ou coisa que o equivalha, por ter trabalhado tanto e desde tão cedo. Se pudesse escolher, aliás, escolheria passar pelas mesmas provações, por saber que o conjunto delas forjou meu caráter, minha persistência e meu amor à vida, à família e à sociedade.

Parte 2 - O que de mais curioso, folclórico ou mesmo dramático marcou tua infância?

Parte 2


Rodrigo Acorsi: Extremamente interessantes os relatos acerca de teus primeiros anos de vida, registrados ontem. Todavia, vida de criança sempre guarda episódios curiosos. A tua, certamente, não foi diferente. O que de mais curioso, folclórico ou mesmo dramático marcou tua infância, professor Ironi Andrade?

Prof. Ironi Andrade: Sem dúvida, minha infância teve tudo aquilo com que, nos primeiros anos de vida, qualquer piazito do interior depara. Infelizmente, porém, as primeiras recordações que me vêm à mente não são nada agradáveis. Naquela época, os pais batiam muito nos filhos. Nunca apanhei de meus pais – não sei se pelo comportamento que levava ou se pelo medo que tinha de apanhar. Mas meus irmãos, sim. E levavam surras homéricas. Lembro que, certa vez, me escondi na escada que dava ao sótão, onde havia uma janelazinha, a fim de ver meus irmãos apanharem. Meu pai chamou-os, pediu-lhes que providenciassem varas bem finas, mas resistentes, preferencialmente de vime, para que ele os surrasse. Algo patético, mas era assim mesmo. Quando ele pegou o mais velho, senti um líquido quente descendo pelas pernas da calça e pingando lá embaixo, na sala, donde partia a escada: mijei-me de tanto pavor. É bem verdade que, ao lado de muitas experiências tristes, tive também a ventura de vivenciar muitos momentos de puro encanto, de pura sedução, de indescritível beleza. Convivi muito, por exemplo, com minha nona, mãe de minha querida e saudosa mãe, e com meu bisavô paterno. Eu era o companheiro inseparável da “Vó Angelina”: passeios, visita aos vizinhos, horta, terços aos domingos à tarde, viagens a Soledade e partos, muitos partos. Ela era daquelas chamadas “parteiras de campanha”. E eu a acompanhava, sem direito a ver nada, evidentemente, e sequer podendo falar sobre assunto tão feio.

Com o “Vô Jorge”, tínhamos embates tão frequentes, quanto dramáticos. Éramos, ambos, muito espertos para a época. Um vivia tentando pôr o outro em frias. Certo dia, enquanto ele dormia, após o almoço, na casinha do forno de pão, junto ao fogo de chão, troquei o palito com que ele limpava os dentes e que, durante a soneca, ficava sobre um cepinho de madeira, por uma minhoca seca, resto de uma pescaria que havíamos feito. E fiquei por aí, “na motuca”. Depois de acordar, ele passou a mão no “palito” e continuou a limpeza dos dentes. Na medida em que palitava os dentes, a minhoca ia amolecendo, é claro. Meio desconfiado, resolveu ver o que estava acontecendo e, então, eu não me contive: “O Vô Jorge tá palitando os dente com minhoca”. Falei aquilo com voz bem fanha, que era como eu falava àquela época. Uma peça, sem dúvida! Outro episódio de que não dá para se esquecer foi quando meu irmão imediatamente mais velho que eu fez o outro, mais velho do que ele, sentar-se na bosta. Sim, as necessidades fisiológicas eram feitas no mato, e o papel higiênico eram ramos de árvores.

Enquanto um fazia suas necessidades, os outros inventavam traquinices. Dessa vez, escondido à margem da estrada, abaixo de um barranco enorme, meu mano Adacir evacuava tranquilamente. Lá de cima, meu outro irmão, o Ivanir, ameaçava-o com uma pedra na mão. Num repente, sei lá se por descuido, ou se por gosto mesmo, aquela pedra soltou-se da mão do mais novo e acomodou o mais velho sobre os dejetos já evacuados. E, claro, ríamos muito. Brigávamos também. Nessas horas era comum, também, substituir a porçãozinha de folhas macias, acumuladas para a limpeza dos fundilhos, por feixezinhos de urtiga: eta, era uma gritaria só e, no meio de nomes feios e pragas de toda ordem, o tempo fechava. Ainda dessa época, lembro do caso do guabiju. Meu mano mais velho, ou meu primo, não tenho certeza absoluta, subiu em um pé de guabiju e se recusava a derrubar frutas aos demais que estavam embaixo da árvore.

Um de meus primos fez, aí mesmo, suas necessidades fisiológicas e enlameou todo o tronco da árvore: descer como? Houve negociação: limpamos o “trajeto”, ele jogou frutas para baixo e, finalmente, como vingança, sujamos tudo de novo! Além desse tipo, na época, saudável de traquinar, pescávamos e caçávamos muito. Numa determinada tarde, lembro, cheguei em casa faminto e só encontrei pão seco para comer. Não tive dúvidas, passei a mão num bodoque, andei cerca de trinta metros, encontrei um tico-tico, acertei-lhe uma pedrada bem no meio do peito, levei-o para casa e, em não mais de vinte minutos, estava comendo pão “potchado” no molho do passarinho. Era tudo muito fácil, por lá. Banhos de sanga, caçadas, pescarias, serões históricos, visita de tropeiros e de mascates, dificuldades de locomoção, madrugadas geladas, nevascas, estradas precárias, tropas de bois, cavalos e mulas, companhia ao pai em negócios de terras, de animais e de produtos agrícolas, terços aos domingos à tarde e missas mensais, pela manhã, na capelinha de Caravágio, culinária, minha mesmo ou de minha nona, horta, tanque, pia, porão cheio de salame, pão bonito saindo do forno, tombo da bicicleta e do cavalo, galpão e guerra de espigas de milho, roupas “bonitas” passadas dos irmãos mais velhos aos mais novos, tudo, numa hora dessas, desfila na memória, numa espécie de filme cuja finalidade é excitar o quase inconsciente e trazer de volta uma infância que, infelizmente, nossos filhos não conheceram e que, a nossos netos, bisnetos e trinetos, parecerá tão somente histórias de avô caduco. Uma pena!

Amanhã, início da vida escolar. Como será que isso se deu? Não percam!

Parte 3 - Mas há uma curiosidade que não quer calar: como foram teus primeiros anos de escola?

Parte 3


Rodrigo Accorsi: Professor Ironi Andrade, tuas respostas, até aqui, têm sido muito ilustrativas e bem esclarecedoras acerca de tua infância, que, de fato, foi como eram os primeiros anos de vida de qualquer menino daquela época. Mas há uma curiosidade que não quer calar: como foram teus primeiros anos de escola, professor?

Prof. Ironi Andrade: Naquela época, havia outra estrutura para o ensino: primário (cinco anos); ginásio (quatro anos); segundo grau (três anos); e faculdade. Faziam-se três vestibulares, ao longo dos estudos, até ingressar no ensino superior.

A entrada na escola, curso primário, dava-se aos sete anos. Com essa idade, aliás, iniciei minha caminhada escolar. A escola ficava a cerca de dois quilômetros de nossa casa. Lembro que carregava o calçado embaixo de braço para pô-lo na entrada da sala de aula. A estrada era pedregosa e havia morros e um riacho. Junto ao prédio escolar passava um curso d’água. Chegando lá, eu lavava os pés na água quente da sanga, batia-os na laje a fim de secá-los, calçava os tamancos e entrava faceiro, sala adentro. Para escrever, fazíamos blocos com papel embrulho – folhas grandes de um papel meio bege usado para embrulhar compras que fazíamos na bodega: erva-mate, sal, açúcar, sagu… Dobrávamos várias vezes e, depois, cortávamos aquelas folhas com o facão três listras, bem afiado, de meu pai. Passávamos uma fita bem colorida para prender as folhas e deixar o material bem bonito. Escrevíamos com lápis e, para régua, cortávamos um pedaço de mata-junta – ripa de madeira usada para juntar as tábuas de uma casa.

Todo o material escolar era carregado numa sacolazinha de pano, tiracolo. Para lanche no horário do recreio, levávamos uma batata assada no forno do fogão. Certa vez, lembro, uma brasa colada à batata furou a sacolazinha. Cheguei à escola sem a batata. A aula acontecia, em meus dois primeiros anos escolares, na igreja da localidade. Eu era muito pequeno e, se buscasse o encosto do banco, cairia para trás. Os pés não tocavam o chão. Assim, ficava das oito às doze horas sem apoio nas costas e pedalando no ar, um sacrifício. Mas era gostoso aprender coisas novas. No terceiro ano, passamos a assistir às aulas na escola recém-construída e que, como galpão, existe ainda hoje. Eram cinco séries – primeira, segunda, terceira, quarta e quinta – numa mesma sala de aula, ao mesmo tempo, e com um único professor. Pobrezinho dele, devia sair de lá e ir para casa tonto. A disciplina era rígida. Quando os alunos conversavam ou aprontavam qualquer outra arte, o professor fazia sinal pelo olhar para que eu, homem de confiança dele, fosse ao riacho buscar pedras a fim de castigar os bagunceiros.

Quando eram meus irmãos que faziam bagunça, eu escolhia pedras bem redondinhas e lisas, que machucavam menos. Os infratores ajoelhavam-se com o peito junto à parede, a cabeça voltada ao teto e o professor colocava as pedras sob os joelhos deles. Havia também uma régua, larga, pesada, de 60 centímetros, que era usada na hora da tabuada. O aluno aproximava-se da mesa do professor, punha uma mão sobre ela e esperava a indicação da tabuada – do dois, do três, do quatro… – a ser “declamada” de cor. Acaso errasse, receberia uma reguada sobre a mão, que logo ficava uma bola de tão inchada.

E ai de quem reincidisse na traquinagem. Uma colega, certa vez, começou a conversar com o colega do lado. O professor, como fazia normalmente, deu “aquela olhada”. Ela se acalmou. Em seguida, porém, voltou a conversar. O mestre, então, chamou-lhe a atenção, pelo nome e em voz alta. Depois de alguns instantes de silêncio, a menina tornou a se comportar indevidamente. Mas por quê! O professor, literalmente, correu, voou até sua classe, pegou-a pela orelha e sacudiu-a. Resultado: o sangue escorreu pescoço abaixo. A orelha da pobrezinha ficou dependurada por uma lasquinha apenas de pele. Socorri-a e acompanhei-a até a casa dela.

Chegando lá, o pai perguntou-lhe o que havia ocorrido e, concluindo que ela havia desafiado o professor, deu-lhe uma surra e, só depois disso, pediu que a mãe da jovenzinha lhe fizesse um curativo. Era assim a disciplina escolar: apanhava-se na escola e em casa também. E não havia oportunidade para explicações.

Pois bem, dos sete aos doze anos, lá, cursei o primário. Assim que esse estágio escolar aproximava-se do final, eu fui ficando nervoso: não queria interromper os estudos. Mas continuar como? Meu pai era muito justo. Aquilo que um filho recebesse, todos teriam de receber. E manter todos na vila para cursar o ginásio era impossível. Além das despesas, que seriam insuportáveis para nosso padrão de vida, as atividades da roça não prescindiam da presença de todos.

O deslocamento diário, entre Segredo e Arvorezinha, tornava-se inviável: eram dez quilômetros de estrada horrível e o meio de transporte era o cavalo. Diante disso, convenci meu pai a pedir ao professor que me deixasse repetir o quinto ano. Não queria parar de estudar e aguardar, quem sabe, um milagre que me permitisse cursar o novo ciclo escolar, o ginasial. Depois de uma consulta à SEC – Secretaria Estadual de Educação e Cultura – o professor-diretor conseguiu autorização e eu pude dar continuidade aos estudos. Que felicidade. Concluí novamente o quinto ano e, então, sim, tive que me contentar em ir à roça, ao invés de ir à escola. A partir dos 13 anos, até os 17, fui apenas agricultor. Em vez de livros, enxada, arado, foice, machado; em vez de colegas de aula, bois, porcos, vacas, galinhas, ovelhas e outros bichos domésticos.

Parte 4 - Nesse período, como era a vida lá fora, na roça? Havia opções de divertimento e, se havia, quais eram?

Parte 4


Rodrigo Accorsi: Prof. Ironi Andrade, foi simplesmente impressionante teu relato acerca dos primeiros anos escolares e, mais emocionante ainda, tua vontade de férrea de prosseguir nos estudos. Mas há, certamente, algumas inquietações que ainda persistem: e a época que mediou entre teus 13 e 17 anos, em que te dedicaste exclusivamente à agricultura, como foram? Nesse período, como era a vida lá fora, na roça? Havia opções de divertimento e, se havia, quais eram?

Prof. Ironi Andrade: Bem, vamos por parte. O Pinguinho, como eu era chamado lá no Segredo, onde nasci e cursei o primário – na verdade, meu apelido era Pingo, mas, para mim, a ideia de um pingo era grande demais: eu era muito mirradinho, magricela, pequeno, muito pequeno -, sempre foi um menino voluntarioso, muito trabalhador e extremamente dedicado à família, aos amigos e ao trabalho. E muito inquieto também. Quando meu pai pedia que algum de meus irmãos fizesse algum tipo de trabalho – cortar pasto, tratar galinhas, porcos, bois e cavalos, cortar e recolher lenha, recolher gavetos para acender o fogo no fogão na manhã do dia seguinte, e por aí afora -, eu já saltava na frente, corria e fazia o que precisava ser feito a fim de evitar que eles, discutindo acerca de quem deveria desempenhar a tarefa, apanhassem e, confesso, de medo de eventualmente vir a apanhar também. Então, eu vivia sempre envolvidíssimo com os afazeres da roça e tudo o que lhes cercava. Nessa época, nossa atividade principal já era o plantio, a colheita e a comercialização de fumo. Eta tarefazinha danada! Era muito sofrida mesmo. Sim, porque, para quem cultiva esse tipo de produto, não há sol, não há chuva, não existem domingos, nem feriados, nem nada. Ah, sim: tampouco há manhã, tarde ou noite. Lembro mais é das festas em homenagem à padroeira da localidade, Nossa Senhora de Caravágio, mês de maio de cada ano. Como fosse uma edição só por ano, esperávamos muito por ela. Era o dia em que comíamos um ótimo churrasco. O almoço ocorria na sombra de árvores, os espetos, de pau, eram cravados no chão e os acompanhamentos constavam de cuca, gasosa e algum tipo de salada, repolho, tomate, cebola. Na verdade, tomávamos guaraná frisante da Polar, fabricado em Estrela. Meu pai punha um pouquinho de vinho no refrigerante da gente. Muito gostoso. Na parte da tarde, ocorriam o jogo de cavalinhos, as pescarias, as rifas e os tradicionais leilões de cucas, tortas e animais obtidos como ofertas (no meu tempo chamavam-se esmolas). Eu, muito taipa – para quem não sabe, monte de pedra, que nem vendaval derruba –, ficava escutando um maluco gritar “quem dá mais”, “dou-lhe uma”, “dou-lhe duas”… Na minha santíssima ignorância, e pensando que o segredo era adivinhar um número, entrei na brincadeira. Era leilão de uma torta. Alguém gritou “doze”, que significava doze cruzeiros (essa era a moeda da época), e eu, “quatorze”. O outro, “quinze”. Eu, “dezesseis”. Ele, “dezessete”.

Eu, “vinte e oito”. É claro que ninguém pagaria um valor daqueles por uma torta. O leiloeiro, “vinte e oito, dou-lhe uma, dou-lhe duas, é filho do compadre Lau (assim era conhecido meu pai, Olavo)”. Entregou-me a torta e ficou esperando o dinheiro. Deus meu, quando vi que não era questão de adivinhar, mas de pagar o valor “gritado”, apavorei-me. Entreguei a torta ao gritão e virei em pernas, morro acima, até em casa. Lembro que, de quando em vez, olhava para trás a fim de me certificar de que o leiloeiro não corria atrás de mim. Que sufoco. Mas havia os bailes também. Esses ocorriam no Barro Preto, localidade vizinha ao Segredo, coisa de cinco ou seis quilômetros. Numa parte do salão havia assoalho de tábuas; noutra, chão batido. A iluminação se dava com lampiões à querosene e a música vertia de uma gaita, um violão e um pandeiro. A poeira e o picumã entupiam as narinas da gente. O cabelo, em vez de gel, era alinhado com brilhantina. Nossa marca preferida era a Glostora. Na sua falta, deixávamos o cabelo brilhando com banha de porco. Imagine-se só: poeira, picumã, calor, suor e banha de porco! E vá xote, vaneira, rancheirão, bugiu e algumas valsas. Que festa. O meio de transporte mais comum era o cavalo. A gauchada ia chegando e os cavalos eram amarrados em árvores, nas proximidades do salão. Lá pela madrugada, era comum sairmos de fininho e soltarmos aquela matungada, não raro com um fixinho de urtiga embaixo do rabo. Eita que saíam bufando, dando pataços no ar e corriam em direção às casas de seus donos. Eu vestia de forma mais moderna, comparativamente aos jovens de minha idade. Usava calça de tergal, azul, camisa volta-ao-mundo, meio amarelinha, e congas pretas. Um espetáculo. Por fim, ocorriam os torneios de futebol. Eu jogava no time do Segredo. Saíamos, aos domingos, disputar vários jogos, até sermos eliminados ou vencermos as competições. Aos domingos à tarde havia também, como compromisso meio obrigatório, os terços, na igreja da localidade. Antes das orações, chegávamos à bodega do Seu Trevisol a fim de saborearmos um refresco de framboesa. Exigíamos água bem gelada: recém tirada da fonte. A fonte, aliás, era a geladeira de todas as famílias. Longe de contar com eletricidade, a bebida, as melancias, tudo era “congelado” na fonte. Uma festa! Quanto a mim, faça-se justiça, eu era muito burro e falava tudo muito erradamente. As duas expressões que mais eu usava eram estas: “mais mió” e “mais pió”. E saía eu, “mais mió”, pra cá; “mais pió”, pra lá. Dava tristeza, certamente, a alguém que, por acaso, fosse um pouquinho menos ignorante do que eu. Certo dia, e lembro bem esse dia, iniciou minha redenção. Apareceu por lá um livro de cartas. Eram cartas para todos os fins: confessar-se apaixonado, pôr fim a um namoro, pedir a mão de uma prenda em casamento, acabar com um noivado, e assim por diante. Meu irmão mais velho, Ivanir, e eu começamos copiá-las em um caderno. O objetivo era melhorar a letra, que era uma tragédia. Pois bem, durante as cópias, e para minha surpresa, vi que o vocábulo “melhor” cabia exatamente onde eu usava a expressão “mió”. Nossa, passei, então, a falar como ninguém: em vez de “mais mió”, passei a usar a expressão “mais melhor”.

Que emocionante! Não bastasse aquela nova burrice, fui mais ao fundo do poço ao praticar uma analogia desastrada: se “mió” era “melhor”; “pió”, pensei, deveria ser “pelhor”. E lá ia eu: “mais melhor”, pra cá; “mais pelhor”, pra lá… Provando que “em terra de cegos, quem tem um olho é rei”, adquiri fama na região toda. Afinal, ninguém falava “mais melhor” e “mais pellhor”, como eu. Tornei-me secretário do padre, sacristão, substituto eventual do professor… Nesse ínterim, o presidente do sindicato rural de Arvorezinha, Luís Cláudio Fornari, resolveu retirar um jovem de Linha Segredo, levá-lo ao internato, formá-lo professor e técnico agrícola e, por fim, devolvê-lo àquela localidade para, com isso, iniciar uma espécie de revolução nos hábitos, nos costumes, na cultura e na produção agropecuária. Um projeto e tanto. E não há de ser difícil imaginar quem ele escolheu: justamente quem falava “mais melhor” por aquelas bandas. E lá fui eu. Iniciava-se, aí, nova fase de minha vida.

Parte 5 - Sofreste muito, vivendo novas experiências, convivendo com outras pessoas, estudando bastante?

Parte 5


Rodrigo Accorsi: Prof. Ironi Andrade, suas respostas são cada vez mais surpreendentes e reveladoras. Elas impressionam sempre, mas, sobretudo, quando revelam o fato de teres sido um menino e um adolescente exatamente como todos os meninos e os adolescentes do interior. E vamos adiante. O presidente do sindicato escolheu que falava “mais melhor” e, aí, foste ao internato. Como foi essa fase de tua vida? Como foi ficar longe de casa, da família, dos amigos, do ambiente do interior? Sofreste muito, vivendo novas experiências, convivendo com outras pessoas, estudando bastante? Conta-nos como foi esse período.

Prof. Ironi Andrade: Sem dúvida, foi um sofrimento, mas um sofrimento prazeroso. Só o fato de continuar os estudos já justificava qualquer sacrifício. Com 17 anos, fui a Estrela, onde ficava a escola em que estudaria mais tarde, a fim de fazer o exame de seleção. Fui aprovado, mas juro que não sei como. Em março do ano subsequente, depois de marchas e contramarchas, pois, para ir, tinha de comprar enxoval – lençóis, cobertas, travesseiro, colchão e algumas mudas de roupa a mais e um para de congas (atual tênis) –, fui ao internato. Ante a resistência coerente de meu pai – “Se um recebe, todos têm que receber” –, meus irmãos foram incríveis. Questionados se eu deveria ir ou não, foram desprendidos, humanos e gentis: deve ir, disseram. Fui. Não sem muita choradeira, antes, durante e depois da partida. Nunca havia ficado fora de casa. Era muito xucro. Amava minha família e as coisas de meu rincão. Tímido como só eu mesmo. E ignorante, muito ignorante. Chegando lá, um prédio que igual nunca havia visto – três andares e centenas de peças, entre salas, banheiros, dormitórios, cozinha, refeitório, depósitos, capela, barzinho e um pátio muito grande, bem cuidado e multicolorido –, uma granja que somente lá vi igual – potreiros com dezenas de vacas leiteiras, chiqueirões com centenas de porcos de raça (vieram os primeiros 35 landraces diretamente da Alemanha, que cuidávamos como se fossem filhotes nossos: cobertura de lama, banhos gelados, sombra, sombra e sombra), aviário com milhares de aves poedeiras, apiário muito grande, campos com pastagens e áreas especiais agricultáveis, dezenas de máquinas que iguais nunca me fora dado conhecer, horta enorme – cuja chefia me coube assumir –, pomares, Escola Primária de Aplicação, campos de futebol, futsal, basquete e vôlei.

Enfim, pode-se imaginar uma família de mais ou menos 180 membros, sendo que todos têm que trabalhar e produzir – naquelas benfeitorias todas – para sobreviver. Alguém se pode estar perguntando: “Mas por que tudo isso?”. Respondo: como era escola normal, hoje magistério, e escola técnico-agrícola, havia necessidade de áreas e equipamentos suficientes para as práticas agropecuárias e didático-pedagógicas. Nos dois últimos anos – dos quatro anos de duração dos cursos –, pela manhã, a aula teórica ocorria na escola normal; à tarde, os normalistas aplicavam, na escola anexa, o que haviam aprendido. Assim também ocorria em relação ao curso técnico-agrícola: pela manhã, as aulas teóricas de zootecnia, horticultura, agricultura, apicultura, avicultura, suinocultura, bovinocultura, e muitos outros conteúdos da área, eram ministradas na escola normal; à tarde, aplicava-se tudo na granja. Uma escola-modelo, sem nenhuma dúvida. A disciplina era rigorosa: às seis horas, o padre Guido Both passava pelos três dormitórios (cerca de 50 rapazes em cada um deles), acordando-nos com umas palmadinhas que, juro, odiávamos. Às seis e quinze, todos já deviam estar, fardados, em forma, no pátio da escola. Chegava o professor de educação física – Remo Jhon, o bendito que me salvou –, trilava o apito e gritava: “Atenção, sentido!”. Em seguida: “Esquerda, volver!”. Depois: “Descansar!”. Até aí, o que se ouviam eram os estouros dos pés batendo na calçada de basalto. Por fim, ele indicava o trajeto de deveríamos fazer, normalmente eram corridas de oito a dez quilômetros. Às sete horas, todos deveriam estar de volta. Aí, na medida em que íamos chegando, entrávamos debaixo dos chuveiros, todos frios.

Uma opção, para “enforcar” a educação física, era assistir à missa que, diariamente, era celebrada na capela da própria escola. Que dilema: eu gostava muito de correr diariamente – fui campão de algumas corridas rústicas (era com se chamavam as maratonas de hoje em dia) –, mas, ao mesmo tempo, não gostava de perder a oportunidade de servir como sacristão, de fazer uma leitura ou de musicalizar a celebração por meio do harmônio existente na capela. Eu mesclava as atividades. Às sete horas e quinze minutos, todos já estavam em fila, na entrada do refeitório, para o café, que se prolongava até as sete e quarenta e cinco. Aí, quem não estivesse na escala de serviços – ah, as escalas de serviços: servir as refeições, limpar o refeitório, lavar a louça, varrer o pátio, limpar os banheiros (horrível!), limpar a capela… – podia recrear até dez para as oito. Nesse horário, todos deviam entrar em fila, série por série e em rigorosa ordem alfabética, para uma oração, para o canto do Hino Nacional Brasileiro e para um número artístico-cultural, atividades que precediam, diariamente, as aulas. Aí tínhamos aulas até as onze e quarenta e cinco. Quinze minutos de folga e, às doze, em ponto, nova fila para o almoço. Das doze e trinta, horário em que acabava o almoço, até treze e trinta, recreio: jogos de futebol, de futsal, de dama, de xadrez… Em meia hora, até as quatorze, tínhamos de tomar banho porque, então, algumas turmas teriam mais um turno de aula; outras, trabalhos na granja. Às dezessete, enceravam-se as aulas da tarde e as atividades agropecuárias. Das dezessete e trinta ocorria o lanche da tarde: fila na entrada do refeitório, lanche, recreio de quinze minutos para alguns, atividades de limpeza para outros. Das dezoito às dezenove, estudo obrigatório: todos em sala de aula, sem um pio. Depois disso, jantar. Às vinte horas, o terço, diariamente. Depois disso, estudos obrigatórios até as vinte e uma. Aí, quem quisesse, podia recolher-se ao dormitório; quem optasse por estudar mais um pouco, podia fazê-lo – em silêncio absoluto – até as vinte e três horas.

Depois disso, repouso até a manhã seguinte, quando iniciaria tudo de novo. O regime era bem rígido, mas não me fez nenhum mal, pois, em casa, também vivíamos com disciplina rigorosa. Muito triste era quando, em forma, alguém era expulso: atitudes homossexuais, preguiça para levantar, desacato a alguma ordem… Depois que alguém lhe arrancasse a camiseta ou a jaqueta com o emblema da escola, o jovem era posto na Combi, levado até sua casa e, após longa explanação e múltiplas justificativas, era entregue aos pais. Coube-me realizar essa tarefa uma vez só. Aprendi muito com aquilo. Mas bastou! Pois bem, meu “pepino” eram o Português e a Redação. Nas outras disciplinas, até que eu me virava bem. Em Matemática, por exemplo, nos últimos três anos, haja vista que as avaliações eram mensais, enfileirei vinte e quatro notas iguais no boletim: todas dez. Mas naquelas duas! Em Português, as notas oscilavam entre 0,5 e 1,5. Em Redação era muito pior, pois havia nota negativa. Era sempre menos cinco, menos sete, menos nove. Certa vez, meu querido professor Albano Wailler deu-me menos quinze. Ante aquela precariedade, ocorreria um fato que, com absoluta certeza, mudaria o rumo de minha vida. Depois de um semestre lá, a direção da escola e os professores reuniram-se, mês de julho, e decretaram: eu seria desligado do internato porque meu Português não tinha mesmo conserto ou arranjo possível. Eu já estava com dezoito anos e, a bem da verdade, era mais analfabeto do que semialfabetizado. Todavia, como no esporte eu era grande destaque, sobretudo nas rústicas – dependia de uma eliminatória apenas para eu representar do Rio Grande do Sul na Corrida de São Silvestre –, meu professor de Educação Física encarregou-se de, na iminência de perder o atleta, defender-me. Em plena reunião, ele pediu mais um semestre para mim, “a fim de não cometermos alguma injustiça”. Seu pedido foi atendido, mas na condição de que me desse a notícia. Encontrou-me no pátio, pôs a mão no meu ombro e falou: “Foste desligado do internato porque teu Português não tem conserto ou arranjo possível. Pedi mais um semestre para ti. Elete foi concedido. Se, porém, até dezembro, não melhorares, voltarás ao Segredo plantar batatas”.

Lembro como se fosse hoje, na hora, aquele “plantar batatas” partiu minha cabeça e fui tomado de uma indignação muito grande. “Não volto”, falei a mim mesmo. “Deram-me uma chance, vou agarrá-la”. Hoje, mais velho, mais experiente, mais paciente também, sei que a vida humana é levada aos solavancos, num cai-e-levanta permanente. Naquela época, eu não sabia disso e foi necessária a sacudida para que eu acordasse. Passei a estudar muito. Lia, lia e lia. Fazia cópias. Postava-me diante dos colegas que conheciam melhor a matéria e, enquanto eles tomavam chimarrão, eu dizia: “Agora vô falá e oceis me corege”. Não precisa dizer que as gargalhadas ecoavam no bosque. Mas aí, um deles dizia: “Não é ‘vô falá’, é ‘vou falar’. Repete 100 vezes”. E lá ficava eu, repetindo, enquanto eles tomavam o mate. Em seguida, outro dizia “não é ‘oceis’, é ‘vocês’. Repete 150 vezes. Eles tomavam chimarrão e eu repetia. Por fim, a parte pior: “Não é ‘corege’, é ‘corrigem’. Repete 200 vezes”. Mas como pronunciar aquilo, se ninguém me havia ensinado a pronúncia dos dois erres? Mas, aos trancos e barrancos, lá ia eu. Durante a semana, eu retirava livros de autores clássicos da biblioteca, principalmente Machado de Assis, e copiava-os inteiros. Acumulei montanhas de cadernos de caligrafia. Interessei-me por cinema – fugia do internato e ia ao centro da cidade assistir a filmes do Tarzan, do Mazaropi, Chaplin e de Apaches – também. Enfim, lá em dezembro eu já estava, digamos assim, aceitável. Continuei estudando muito no período de férias e, em março, espantei meus colegas: transformei-me num dos alunos de notas mais altas da turma. E aí foi. Tanto que, em novembro de 1971, quando me formei, viria a ocorrer outro fato extraordinário. A reforma de ensino, em setembro, eliminou o reconhecimento daquele tipo de titulação. Saímos todos com certificado de oitava série. Meu Deus!!! O que fazer??? Inscrevi-me no Madureza Ginasial, posteriormente Artigo 99, e hoje Supletivo. Em três dias de provas, eliminei todas as matérias do segundo grau e habilitei-me ao vestibular. Hoje sei, também, que Deus não nos dá fardos que não possamos carregar.

Parte 6 - Depois da formatura, os exames supletivos, o vestibular, o início na profissão, como se deu tudo isso?

Parte 6


Rodrigo Accorsi: Como em todas as perguntas até aqui, magnífica também tua última resposta, prof. Ironi. Mas, agora, dize-nos outra coisa: depois da formatura, em Estrela, os exames supletivos, o vestibular, o início na profissão, como se deu tudo isso?

Ironi Andrade:Vamos lá, então. “Formado”, vim a Passo Fundo, onde moravam meus avós, Reinoldo e Lúcia, e vários tios. A intenção sempre fora cursar Agronomia. Fiz vestibular em janeiro de 1972, mês e meio depois de acabar o técnico-agrícola e o normal e quinze dias após eliminar o segundo grau pelo supletivo, passei, mas, aí, houve outro problema: o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Arvorezinha, que pagaria a faculdade, como se dizia lá fora, “roeu a corda”. Na verdade, ocorreram eleições e o MDB perdeu para a ARENA. Aí, o novo presidente, cortou a bolsa. Diante disso, pensei: espero até julho, faço novo vestibular, passo, pago a faculdade com meu próprio trabalho e curso, mais tarde, Agronomia! Ante essa decisão, veio o dilema: fazer vestibular para quê? Tomei uma decisão: Letras! Certamente, nenhum psicólogo teria dificuldades para explicar o porquê.

Fiz o vestibular em julho, passei, comecei a cursar a faculdade e procurar emprego. Época terrível. Em janeiro do ano seguinte, 1973, surgiu a notícia de que estavam abertas as inscrições para contratação de professores pelo Estado. Era algo semelhante aos contratos emergenciais de hoje. Chamavam-se “contratos em caráter precário”. Decidi: vou nessa! Informado por um colega, soube que na área da Delegacia de Ensino de Lagoa Vermelha era mais fácil. Fui lá e me inscrevi. Em março, fui chamado. Exames médicos e contratação. Fui trabalhar em André da Rocha, à época distrito de Lagoa Vermelha e hoje município. Lá fui muitíssimo bem recebido, encontrei um ótimo ambiente de trabalho e me adaptei muito bem. Logo que cheguei, me propus a mostrar serviço. Faltava professor, lá estava eu, substituindo. Reuni alunos e ajardinamos a escola, fizemos quadra de esportes – de chão batido, é verdade -, formamos grupo de teatro, desenvolvemos atividades comunitárias, uma revolução na vilazinha.

Diante disso, minha querida ex-diretora, Soeli Barreto Hoffmann, cerca de dois meses depois de contratado, perguntou-me: “Queres mais um contrato? Trabalhas tanto, és tão competente e colaboras muito conosco, se quiseres, vou à DE e dou um jeito”. Nossa senhora, que oferta! Evidentemente que aceitei. E passei a trabalhar ainda mais! E me sentir milionário. Passados mais dois meses, a professora de Educação Física entrou em licença gestante e minha diretora falou: “Prof. Ironi, tu és tão prestativo, trabalhador, competente, aceitas mais meio contrato a fim de substituir a professora de Educação Física?”. Claro que aceitei. E já estava no teto, considerando que dois contratos e meio era o máximo que um professor, na época, podia ter. Aí, um fato extraordinário. Depois de oito meses de trabalho, chegou a (feliz) notícia de que meus atrasados encontravam-se à disposição na Caixa Econômica Estadual – hoje, Banrisul –, em Lagoa Vermelha. Endividado até os cabelos – oito meses de hotel, oito meses de restaurante, empréstimos de meus amigos, e muitas outras continhas –, esperei o primeiro ônibus e zás, ao banco. Enfim, receberia meu primeiro salário!
Chegando à Caixa, a atendente dirigiu-se a mim, mais ou menos assim: “O que tu qué?”. Respondi-lhe: “Receber meu salário”. “Mas quem tu é?”, perguntou ela. “Sou professor no André”, foi minha resposta. Pediu-me um documento e foi à minha ficha – naquela época nem se falava em computador e as anotações eram feitas em fichas (cada cliente tinha uma), a lápis ou à caneta – olhou o saldo, encarou-me com outro olhar e perguntou: “Quanto o senhor vai levar?”. “Tudo”, respondi-lhe. Ao que ela ponderou: “Mas o senhor não pode levar todo esse dinheiro”. Minha resposta, curta, ignorante e grossa: “É meu”. Ela insistiu: “Mas é muito dinheiro para o senhor levar numa vez só! Como o senhor veio do André (leia-se, é claro, André da Rocha, onde eu trabalhava)? “De ônibus e o dinheiro é meu”, respondi-lhe. E ela: “Olha, o senhor tem que falar com o gerente. É aquele aí”, concluiu a fala apontando para um cidadão sisudo que ocupava uma escrivaninha ao lado. Fui até lá e ele me recebeu assim: “O que o senhor quer?”. “Receber meu salário”, respondi. “O que o senhor faz?”, prosseguiu ele. Nesse momento, a mocinha do caixa soltou, diante dele, a ficha onde constava o saldo de meus salários.

Ele, imediatamente, mandou-me sentar, mudou o tom de voz e perguntou: “Mas quanto o senhor quer levar?”. “Tudo, é meu”. E ele: “Sim, sim, é seu. Mas o senhor não pode sair com todo esse dinheiro daqui. Como o senhor veio do André?”. Respondi-lhe que havia vindo de ônibus. E ele: “Negativo, o senhor não pode sair à rua com todo esse dinheiro, ainda mais de ônibus. Faço-lhe uma proposta: o senhor deixa metade desse valor depositada aqui e eu até lhe forneço um talonário de cheques”. Minha resposta: “Não. É meu!”. Aí, meus amigos, eles começaram a contar dinheiro e pôr uns pacotes dentro de um saco, daqueles de sal, de açúcar, e não acabavam mais. Meu Deus do céu, pus aquele saco sob o braço, fui à rodoviária, sentei-me, apertei aquela dinheirama contra a lateral do ônibus e andei hora e meia, acho, sem respirar. Um sufoco! Narro esse episódio, assim, com tantos detalhes, para mostrar como os professores eram bem remunerados naquela época.

Senão, vejamos: cheguei a André da Rocha, de retorno, paguei hotel, restaurante e outros pequenos comércios da vila, devolvi os caridosos empréstimos com que meus amigos (especialmente o proprietário do hotel, o senhor Miguel Ângelo Tagliari) me sustentaram durante todo aquele tempo e ainda sobrou para comprar um Corcel, com dois anos de uso, e pagá-lo à vista. Uma loucura ser professor naqueles tempos! Depois disso, o trabalho seguiu normalmente, por dois anos. Ao final desse período, por necessidade mais urgente de professor de Português e de alguém “com peito” para promover mudanças no nível de ensino, na cidade de Sananduva, fui transferido para lá. Aí iniciava-se novo e interessantíssimo ciclo em minha vida pessoal e profissional.

Parte 7 - Depois de dois anos em André da Rocha, como foi essa nova etapa, a etapa-Sananduva, em sua vida?

Parte 7


Rodrigo Accorsi: Muito bem, professor Ironi Andrade, depois de dois anos em André da Rocha, foste a Sananduva. A missão, em princípio, não era fácil: promover mudanças no nível de ensino naquela cidade. Como foi essa nova etapa, a etapa-Sananduva, em sua vida?

Prof. Ironi Andrade: Devo confessar que essa etapa foi de muita realização, de muito progresso pessoal e profissional, de muito trabalho, de muita festa, também. E por que não? Eu estava, nessa época, com 24, 25 anos. Chegando lá, escola nova, moradia nova, colegas novos, diretor novo – troquei o ótimo pelo ótimo: Soeli Barreto Hoffmann por Arnaldo Tondo –, alunos novos, tudo novo. Depois do impacto inicial, uma bela estada naquela cidade. Afinal, sempre fui de envolver-me muito comunitariamente. E em Sananduva não foi diferente. Logo na chegada, instalei-me muito bem “no Ipiranga”: um complexo com rodoviária, lancheria, churrascaria, posto de revenda de combustíveis e hotel. E bem na frente do colégio onde trabalharia. Lembro que fui chamado pelo prefeito municipal – Oswaldo Camozatto – que me “nomeou embaixador de Sananduva”.

Explico com palavras dele: “Professor Ironi Andrade, já tenho informações a seu respeito, informei-me acerca de sua idoneidade pessoal, profissional e moral, sei que morarás no Ipiranga e quero que sejas ‘embaixador de Sananduva’, na recepção a pessoas que cheguem à cidade”. Inteligentíssimo o prefeito Camozatto: de fato, todos passavam por lá, ou faziam as refeições, ou pernoitavam no Ipiranga. Dito e feito: via algum forasteiro e lá ia eu dar as boas-vindas em nome da cidade. “Coisa colossal ser embaixador de uma cidade”, diria Monteiro Lobato. Com isso, conheci muita gente: médicos, veterinários, agrônomos, juízes, promotores, professores, delegados, funcionários públicos, empresários, todos, enfim, que iam à cidade a fim de atuar profissionalmente ou passavam por ela a passeio. E me integrei, graças também a isso, muito fácil e rapidamente, à vida de lá.

Passei a dar aulas também no Colégio Santa Teresinha, das irmãs, fiz parte do Conselho Comunitário, da diretoria do AGS – clube esportivo e social –, da APAE, e de muitas outras instituições da cidade. Com o auxílio de meus colegas, promovemos, de fato, uma revolução social, cultural, filantrópica e educacional na cidade, quer inovando nas técnicas de ensino-aprendizagem, quer exigindo conhecimentos mais profundos dos alunos. Tive namorada e promovi o primeiro baile de debutantes, o primeiro baile de formatura do Colégio Estadual e primeira programação completa – quatro noites e dois matinês – de carnaval. Com jovens e alguns casais, agitávamos a programação sananduvense. Verdade é que, ao lado dessas maravilhas todas, iniciou-se aí um verdadeiro calvário, que se perduraria por longos, sofridos e quase intermináveis 17 anos: a doença que quase me abateu. Mas “Deus escreve direito por linhas tortas”, sempre pensei. E não foi outra coisa. Vamos lá.

Nunca tinha tido qualquer problema de saúde, além de um dedão destroncado, um joelho arranhado, ou coisas do gênero. Dessa vez, porém “preteou o olho da gateada”, na linguagem bem gaudéria. Certo dia, sem razão aparente, tive uma indisposição aguda, acutíssima: tontura, vômitos, mal-estar profundíssimo. Hospitalizado, examinado “dos pés à cabeça”, e nada. Alta hospitalar e, dois ou três dias depois, nova crise, e nova, e nova, e nova. Médicos e enfermeiras do Hospital São João não podiam mais me ver chegando. Senti-me no fundo do poço, assim, de uma hora para outra. Aí, o inusitado: por recomendação médica, em 1976, fui transferido para Passo Fundo a fim de ficar mais próximo dos recursos médico-hospitalares. Aí, bem, aí outra história, outra via sacra, mas, enfim, o sucesso!

Parte 8 - Como foi a nova fase de sua vida, o recomeço em Passo Fundo?

Parte 8


Rodrigo Accorsi: Produtiva e complicadíssima sua passagem por Sananduva, professor Ironi Andrade. Mas e daí, Passo Fundo, proximidade dos recursos médico-hospitalares, novo recomeço. Como foi essa nova fase de sua vida?

Prof. Ironi Andrade: Pois bem, chegando a Passo Fundo, retornando ao lar e morando junto com meus pais e meus irmãos, sentia-me no céu. Passei a dar aulas no Colégio Cecy Leite Costa. Foi ótima a recepção que tive, quer de parte da direção, quer dos colegas, quer dos alunos. Tudo ótimo. E, melhor ainda, bem pertinho de casa. Assumi as aulas de Inglês na sexta e na sétima séries. Em seguida, por falta de professores, passei a lecionar aquilo de que gostava mesmo, Português e Literatura. Observando meu esforço, o professor Geraldo Alfredo Hallwas, diretor, confiou-me a coordenação do Curso de Redator Auxiliar que funcionava exitosamente no educandário. Tudo fantástico, no convívio diário com familiares, com diretores, com colegas, com alunos, com amigos. Namoro firme com a Inesinha, que me acompanha até hoje, mas sempre doente, tendo recaídas terríveis e muito frequentes.

O périplo por prontos-socorros e hospitais era tão frequente que médicos daqui também não sabiam mais o que fazer. Um deles, aliás, depois de me ouvir por não mais de três minutos, sentenciou: “É grave, gravíssimo. Estou chegando dos Estados Unidos, onde fiz especialização, e sei que foram tratados, até hoje, dois ou três casos, no mundo todo. E todos sem sucesso. Vai pra casa e espera mais uma semana ou duas”. Não há de ser necessário expressar o pânico que tomou conta de meu plano consciente. Fui até em casa – lá no Bairro São Cristóvão – correndo, chorando, desesperado! Depois desse episódio, terrivelmente triste, fui encaminhado a Porto Alegre. Quem me atendeu foi o doutor Aspesi, italiano, havia chegado ao Brasil a fim de dar aulas na Universidade Federal do Rio Grande do Sul e na Universidade Federal de Santa Maria. Lembro bem, ele atendia num consultório experimental, na Rua da Praia.

Nossa, quanta esperança! Atendeu-me – com aqueles martelinhos batendo nos joelhos, nos calcanhares e nos cotovelos – e formulou algumas perguntas, ao que se seguiram breves respostas. “O que o senhor sente, professor?”, perguntou-me ele. “Tonturas, doutor”, respondi eu. A segunda pergunta do médico: “E daí, quando lhe dá tontura, o que o senhor faz, professor?”. “Durmo, doutor”, essa foi a minha resposta. “Quanto tempo o senhor dorme, professor?”, prosseguiu ele. “Um dia ou dois, doutor”, respondi. “E aí, o que acontece, professor”, continuou aquela sumidade em pessoa. “Aí passa, doutor”, falei. E, então, a conclusão superinteligente que, infelizmente, pessoas pouco dotadas de inteligência nem sempre entendem: “Pois é, professor, tem que dormir antes de dar a tontura”. Saí de lá sem entender nada de nada. Encaminhado a outros médicos da capital, apenas acumulei mais exames aos que já tinha.

Mais tarde, num exame aqui em Passo Fundo, testando um novo, maravilhoso e revolucionário equipamento adquirido pelo Hospital São Vicente de Paulo, descobriu-se um ponto escuro na parte posterior do cérebro, região do cerebelo. “Pode ser um tumor”, disse-me o médico responsável pelo exame. E meu desespero era tanto que exclamei: “Graças a Deus, ao menos encontraram alguma coisa!”. Aí, o neurologista que me acompanhava encaminhou-me ao Hospital Albert Einstein, São Paulo, a fim de fazer o exame mais revolucionário da história da medicina, até então, a ressonância magnética nuclear. O objetivo era clarear a situação. Fui. Fiz o exame. E nada! Tratava-se simplesmente de uma parte do cerebelo necrosada em relação à qual nada podia ser feito. Decepção! Retornei àquele hospital mais algumas vezes. Sempre que equipamentos novos eram adquiridos, o doutor Mangabeira, uma espécie de mago da Otorrino, me chamava a fim de eu testá-los.

Depois de esgotados todos os esforços médicos, uma reunião de três horas com a equipe da ressonância, seis especialistas, e a conclusão do médico-chefe: “Professor, organicamente o senhor não tem nada. O senhor é uma pessoa saudável. Não há mais o que investigar. Nosso conselho é este: procure observar os sinais que antecedem suas crises de tontura e aprenda a conviver com o problema. Pressentindo a proximidade de uma crise, para e descansa antes que ela chegue”. Surpresa: exatamente o que, cerca de dez anos antes, o doutor Aspesi quisera dizer-me, mas que não entendi. E a causa de tudo isso, há de estar-se perguntando o leitor. Pois bem, desde meu primeiro dia de aula, nunca quis ser um profissional a mais no mercado, isto é, apenas mais um. Quando saí lá do mato e, prosseguindo meus estudos, fui a Estrela, já pensava em ser alguém diferente de tudo o que já existia.

Sempre achei uma bobagem existir apenas para acrescer mais um a milhões de outros. Se decidi ser professor, foi para ser diferençado na relação com tudo o que já existia. Tinha pesadelos terríveis quando me assaltava a sensação de estar ensinando Português a meus alunos de forma tão primitiva, tão autoritária, tão sem sentido quanto esses mesmos conteúdos me haviam sido ensinados. Eu queria, a eles, menos sofrimento, mais prazer e melhor rendimento. Mas, infelizmente, indo à sala de aula crivado de incertezas, tudo me deixava mais perplexo, triste, doente. Lembrava-me das aulas em que eu queria saber o porquê de certas coisas e os professores respondiam: “Não vês que está no livro?”. É claro que eu havia visto. Mas aquilo que eu visualizava não era tudo o que eu queria ver e nem sempre me satisfazia. O porquê de cada coisa era minha busca.

Depois de três ou quatro perguntas, ao levantar meu braço, antes mesmo de perguntar, vinha a contestação: “Pronto, lá vem ele, de novo. Já quer saber mais do que o autor do livro, é?”. Uma tragédia. Eu, definitivamente, não queria isso a meus alunos. Mas e fazer algo diferente, como? Paranoia e estresse totais. Doença! Mas a doença veio e eu não desisti. Meus rudimentos filosóficos resistiam a eu crer em algo tão fora de lógica, tão sem propósito, tão esdrúxulo, tão insosso, tão pouco produtivo. Eu queria encontrar, porque deveria existir, uma sequência lógica dentro do conteúdo, que facilitasse o ensino, a aprendizagem e a compreensão de tudo. E encontrei. Distribuí todo o conteúdo gramatical no que convencionei chamar Escada do Português Lógico – uma suposta escada de nove degraus, enumerados do 1˚ ao 9˚, e na qual passei a distribuir toda a gramática, direitinho. Um sucesso! Aí vi que, de fato, Fernando Pessoa tivera razão quando dissera: “Tudo vale a pena, se a alma não é pequena”.

Parte 9 - Trabalho em cursinhos, em colégios, o casamento, os filhos...

Parte 9


Rodrigo Acorsi: Sim, aí o trabalho em cursinhos, em colégios, o casamento, os filhos…

Prof. Ironi Andrade: Sim, aí vieram muitas coisas, um turbilhão de novidades. Chegando aqui, estreitei os laços sentimentais com minha Inesinha, com minha família, com meu colégio, com a sociedade passo-fundense. Isso tudo ocorreu em 1976.

No ano seguinte, 1977, “só pra ver como estão meus conhecimentos”, fiz vestibular para Direito. Passei. Aí, além de todas as atividades já executadas, e a doença, ainda passei a preocupar-me com a nova faculdade. No fundo, no fundo, uma irresponsabilidade. Mas as coisas iam bem. Professor do Pré-Vestibular Integral, surgiu a oportunidade de, juntamente com outros três professores, comprá-lo. Tornei-me diretor da nova sociedade. Aos “trancos e barrancos”, eu ia levando as coisas. Em família, no colégio, na faculdade, no cursinho, no plano sentimental, tudo ia muito bem. Mas a saúde era um problemão! Todavia, é bem como se diz: na vida, tudo se compensa! Em 1977, ainda, assumi mais compromisso na escola: coordenação do Curso de Redator Auxiliar. Experiência fantástica! E, assim, fui levando.

No ano de 1978, um grande acontecimento: no Natal, o noivado e a marcação do casamento para o dia 21 de abril de 1979. Foi isso, nesse ano, e nada mais.

O ano seguinte, 1979, porém, iniciou trepidante. Em janeiro, meu amor, e aluna, Inesinha, passou no vestibular e, na comemoração, pimba: geramos nosso querido Rodrigo. Foi incrível. Ela vai detestar, todavia vou contar: já mantínhamos relações sexuais, fazia longo tempo, sem qualquer espécie de recurso anticoncepcional, exceto nosso elevadíssimo autocontrole e a consciência de que tudo deveria vir na hora certa. No dia da aprovação, depois da popular Festa dos Bixos, ainda comentamos: “Hoje não dá”. Mas pensamos também: e se vier, que mal há? O casamento estava marcado mesmo. E aconteceu. Nove meses depois da festa de comemoração, sete meses e meio após o casamento, recebíamos um dos dois mais incríveis presentes que Deus nos reservou, nosso primeiro filho.

O casamento, em abril, foi um acontecimento. Em julho, porém, já tive de encarar uma decisão difícil: trancamento da faculdade de Direito por dificuldades de pagamento e pelo estado de saúde que se agravava a cada novo dia. Além disso, a sociedade empresarial já dava sinais de descontrole financeiro, tudo por má administração. Meus sócios, ante perspectivas tão sombrias, abriram mão de suas cotas de participação e eu, em mais uma de minhas tantas irresponsabilidades meio juvenis, toquei o barco em frente sozinho. Em 10 de novembro, justamente no dia em que minha querida e saudosa mãezinha aniversariava, nascia nosso não menos querido Rodrigo. Nada de melhor poderia ter acontecido.

Em 1980, sim, parece que, decididamente, o mundo veio abaixo: de um dia para outro, fiquei desempregado e cheio de dívidas. Explico: tentando salvar a empresa, idealizei transformá-la em sociedade de professores. Depois de algumas reuniões com os interessados, e seguindo as orientações de meu advogado, decidiu-se que simularíamos uma ação trabalhista, na qual os professores reclamariam salários atrasados (que não havia!!!) e, na audiência de conciliação, eu proporia repassar ativo e passivo da empresa como quitação dos “débitos”. Depois, evidentemente, eu seria convidado a ser sócio de meus professores. Eles deixariam seus salários na própria empresa até a quitação total das dívidas para com terceiros – material didático, fornecedores e algumas operações bancárias –, que existiam. Dito e feito: “ação” ajuizada, audiência, minha proposta, homologação judicial e… nada de convite! O golpe foi tão descaradamente grande que, entendi depois, apenas alguns professores tiveram coragem de aderir ao plano e até o juiz da Vara do Trabalho deu-se por impedido na hora de decidir. E pior foi a conversa com um dos golpistas: “Tu tiras tuas coisas pessoais de lá, não haverá convite nenhum, já registramos uma nova empresa que tocará as aulas em frente e não pagaremos dívida alguma”. O mundo veio abaixo mesmo. Peguei mulher e filho e viajei. Alguns dias em Porto Alegre, pensando no que fazer, e, depois, aceitação de um convite dos meus queridíssimos tios Biba e Antônio para trabalhar na Almaden, em Santana do Livramento. Pois bem, foram dois meses de experiência numa área totalmente desconhecida, dois salários mínimos para sustentar, minha esposa, meu filho e a mim mesmo, e muita saudade! Ah, sim: e o repasse do financiamento e de nossa belíssima casa do Bosque a uma fiel colega de magistério, estadual e de cursinho, que se solidarizou, o tempo todo, conosco. No todo, um horror!

Retornando da fronteira para visitar minha Inesinha e meu filho Rodrigo, ouvi de minha querida e sempre parceira: “As irmãs do Colégio Notre Dame e o diretor de um novo cursinho que está instalando-se aqui estão atrás de ti e querem que dês aulas a eles”. Senti, ali, renascerem as esperanças. Fui conferir de perto as informações. E elas se confirmaram plenamente. Os proprietários do novo empreendimento, e meus empregadores, veicularam, então, meia dúzia de anúncios na TV – “Comunicamos que, a partir desta data, o professor Ironi Andrade passa a fazer parte da equipe de professores do Visão” – e faltou espaço para tantos alunos.

Depois de dois anos nessa empresa, notei que estava cansado, que o estado de saúde era cada vez mais precário, e eu precisava de uma fonte de renda mais significativa a fim de pagar todas as contas herdadas da empresa golpeada. Aliás, nessa última tarefa, consumiram-se cerca de oito anos de minha vida, de meu trabalho, de minha energia. Mas nenhum centavo deixou de ser pago, graças a Deus. E não guardei nenhum ressentimento. Julgo que não é daqui esse tipo de acerto de contas. Posteriormente, por insistência do diretor de outro cursinho da cidade, e ante propostas mirabolantes, trabalhei um ano por lá. Por fim, fundei, juntamente com uma pessoa realmente maravilhosa, meu sócio Edgar Antunes dos Santos, o maior curso pré-vestibular da história de Passo Fundo, o Michigan Vestibulares, em 1985.

Antes disso, em julho de 1984, ganhávamos, a Inesinha e eu, o segundo grande, imensurável, indescritível e incomparável presente de nossas vidas, a Franciele. Nossa, que alegria! Um casal de filhos! Nada melhor! Aprendi, aí, que a tristeza de uma simples doença não é capaz de superar a alegria pelo nascimento de um filho. Nada supera o milagre da vida, aliás!

Parte 10 - A nova metodologia para o ensino da Língua Portuguesa...

Parte 10


Rodrigo Acorsi: Depois disso, professor Ironi Andrade, a nova metodologia para o ensino da Língua Portuguesa. Como se deu tudo isso?

Prof. Ironi Andrade: Sim, enquanto eu dava aulas no Michigan Vestibulares, administrando-o também, e a doença teimava em me perseguir, ouvi conselhos de muitas pessoas. Segui as mensagens dos verdadeiros amigos, da família e, sobretudo, dos médicos da Ressonância Magnética Nuclear do Hospital Albert Einstein, de São Paulo, e cheguei, também, a algumas conclusões interessantes.

Em relação à saúde, o conselho médico fora aquele já explicitado anteriormente: deveria conviver com o problema, aprendendo a antecipar-me a ele, isto é, ao perceber os menores sinais de que as crises de tontura – manifestação da labirintite – se aproximavam, sair de cena, relaxar e, em seguida, encarar a luta novamente. Foi, é e continuará sendo difícil. Afinal, sei que esse fardo terei de carregá-lo para sempre. Mas já faz quase duas décadas que lido bem com o incômodo e sei, também, que há coisas bem piores, mas que são suportadas com galhardia por irmãos meus.

Da família, tive certeza, ainda mais, de que poderia contar com ela para tudo, inclusive para algumas de minhas maluquices. No que diz respeito aos amigos, o grande aprendizado foi este: levar adiante minhas descobertas metodológicas e tirar proveito delas.

O conjunto de todos esses conselhos sedimentou minha crença e, então, parti para algo mais conclusivo. Hoje vejo que, de fato, às vezes “Deus precisa escrever direito por linhas tortas”. Certamente não vim ao mundo apenasmente para ser mais um. Ele queria, de mim, algo a mais. Visto que eu não reagia ao chamado, impôs-me um castigo merecido. E, aí, eu entendi o recado: levei minhas buscas às últimas consequências. A metodologia que criei, vendo hoje o caminho percorrido, valeu por todos esses sofrimentos, sim.

Hoje, sexagenário, sou extrema e plenamente feliz. Vivo bem, sou respeitado pela família, pelos amigos e pela sociedade, tudo em porções, às vezes penso, bem mais pródigas do que meus merecimentos, não guardo ressentimentos, não quero (até porque não preciso), no plano material, mais do que o pouco que honestamente acumulei e tenho consciência de que ainda poderei dar muito mais de mim mesmo.

Quanto à vida que ainda me resta, farei o máximo para que valha ainda mais a pena, mas sem nenhuma pretensão desmedida. A mim, muito pessoalmente, julgo que o supremo pai já fora quase excessivamente pródigo. Se me ensinou, por vezes, pela dor, foi tão somente porque não fui suficientemente sensível para atender (e entender!) naturalmente seus apelos. Sei que a felicidade que ainda poderei saborear dependerá muito mais de mim mesmo, na medida em que souber abrir-lhe os caminhos, do que de quaisquer outras coisas ou pessoas. Ela é como um sopro suave, mas extremamente reconfortante, do vento. Muitas vezes toca nosso rosto, mas, tão fechados nos encontramos, não conseguimos sentir-lhe os afagos.

Em relação à família mais próxima – esposa, filha e filho –, só peço a Deus que a guie, a abençoe e lhe retribua, na proporção dos merecimentos, que já será em quantidade quase exagerada, o carinho, a compreensão e o amor que sempre me devotaram. Para com meus filhos Rodrigo e Franciele, entendo que já ganharam as armas de que nós – seus pais e seus avós – não dispúnhamos na idade deles, nem muito tempo depois: a cultura, único bem que, ao longo de suas prósperas existências, não lhes será surrupiado por quem quer que seja. Espero que sejam sempre mais sedentos de bens incorpóreos do que materiais. Todavia, e sempre que possível aliar as duas coisas, que não desprezem as oportunidades, mas saibam fazê-lo com bom senso, altruísmo, solidariedade e equilíbrio. E que não esqueçam, dentre os poucos conselhos que lhes deixei, que preferi educá-los sempre pelo exemplo, especialmente um: entre multimilionários e felizes, optem pela felicidade sempre e incondicionalmente.

À minha parceira de tantos anos, e de todas as horas, dizer o quê? Talvez, mas com a certeza de ser pouco, isto: obrigado, obrigado e obrigado. Sim, preciso, primeiro, pedir-lhe perdão por, ao longo de nossa já longa convivência não ter sido suficientemente competente e desprendido a fim de recompensar-lhe o carinho, a compreensão, a estima, o respeito, a admiração, os cuidados e o amor a mim sempre, e fartamente, dispensados. Preciso ser bastantemente humilde, também, para reconhecer que, em muitos e muitos momentos, não fosse sua inquebrantável força, sua despojada obstinação, sua férrea coragem e seu incondicional apoio, certamente eu não teria conseguido perseverar e hoje não seria tão feliz quanto o sou. Tenho certeza absoluta de que a Inesinha não foi feita para me acompanhar, como o ser humano em que se travestiu e veio ao mundo. Afinal, e embora suas feições sejam deste plano, ela é um daqueles seres alados que planam na imensidão dos espaços, sempre à procura de como ser útil, de como ajudar a quem precisa de força, de coragem, de apoio, de carinho, de paz e de amor. E tem mais, e para que todos saibam, e para que ninguém ouse duvidar, eu garanto: não tenho a parceira que pedi a Deus. O porquê? Simples: porque não pediria tanto!

A meus pais, Dona Santinha e Seu Lauzinho, a veneração que a ídolos não tributamos, porque somente a Deus, aprendemos, nos é dado venerar. Mas, se desafiado pelos dogmas da santíssima igreja por minha ousadia em venerar humanos, simplesmente responderia: que mal há em glorificar ao Senhor, venerando seres divinos por ele criados? A educação recebida me manteve na retidão e na honestidade sempre; os exemplos copiados me conduziram ao caminho dos que perseveram sempre; os valores repassados forjaram meu caráter e moldaram minha personalidade. Nunca tive tudo o que quis, porque a carência material impunha sempre limites; mas nunca, também, me faltou nada daquilo de que mais precisei, pois o amor de ambos existiu sempre e sempre me foi ofertado em doses maiúsculas e suficientes. Que a Dona Santinha esteja desfrutando, no plano mais alto em que há mais de uma década se encontra, as benesses de seu incomensurável amor; que o Seu Lauzinho continue sua obra por aqui, enquanto Deus nos brindar com o privilégio de sua encantadora presença, mas que, depois, se junte a seu verdadeiro e eterno amor, na querência do pai celestial.

Meus irmãos – Joici, Adacir, Ivanir, Lorena, Libraci, Vílson, Nair, Lauderi, Leudacir, Velci e Roberto – abdicaram, sempre, da condição de meros irmãos e assumiram o merecido status paternal também, sobretudo os mais velhos que, na (in)decisão sobre minha ida ao internato, responderam positivamente à indagação de meus pais, permitindo que me tornasse o que hoje sou. Agradecê-los com palavras, sei, é pouco. Mas sei, também, que eles não duvidam do carinho, do respeito, do apreço, da gratidão e do amor que lhes tenho. Que Deus seja pródigo, recompensando-os fartamente também.

A meus ex-alunos e alunos atuais, por fim, meus agradecimentos, embebidos de súplica por perdão: fi-los cobaias, sem que lhes pedisse licença, ao menos. Sim, no afã de tornar o ensino e a aprendizagem de nosso querido idioma mais simples, atraentes, produtivos e fáceis, meus 40 anos de cátedra foram só experiências. E vocês, humilde e resignadamente, serviram-me de cobaias em dezenas, centenas, milhares experimentos didático-pedagógicos. É graças a vocês, sim, que hoje comemoro uma fase áurea de minha existência: a culminância da construção de uma nova metodologia de ensino-aprendizagem da Língua Portuguesa. Tenho clara consciência de que essa verdadeira arquitetura didática facilitará a vida de milhões de outras pessoas, tal qual facilitou a existência de todos vocês. Mas a verdade é que, não tivessem vocês sido tão compreensivos para comigo e para com a história que ainda se descortinará diante de todos nós, esse intento não se teria concretizado tão expressiva, grande e concretamente. Ninguém dos milhões de alunos que passaram pela minha vida – toda repleta de experiências grandiosas e de plateias expressivas, atentas, dedicadas e bondosas – imaginava, por certo, que, depois de um início alegre de convívio em sala de aula, ser-lhe-ia aplicada mais uma experiência gestada no silêncio de noites e noites maldormidas. Mas foi assim. Custou-me caro, posso-lhes garantir, chegar a tantas e tantas descobertas, redescobertas e a tanto reestudo, mas valeu tanto a pena que, estivesse eu, de novo, no longínquo abril de 1973, recomeçaria tudo de novo e trilharia os mesmos caminhos, desde que me fosse dado, outra vez, desfrutar de companhia como essa com que vocês todos me presentearam. A mim, enfim, a alegria das descobertas; a vocês, os louros da paciência, da compreensão, da bondade, da estima, da humildade, do companheirismo, da lealdade, do amor ao próximo, do patriotismo e do respeito ao símbolo pátrio por excelência.

Muitíssimo obrigado a todos!

  • Prometo desenvolver, num dia qualquer do futuro, ainda mais cada momento, cada episódio, cada instante de minha vida, colorindo-os com mais detalhes, curiosidades mais marcantes, passagens mais hilárias e situações mais dramáticas. Há muito a ser dito, mas que não pode ser explicitado agora (e ainda!).
css.php